Cuidado para não derrubar

Jovem, sem pudor, livre e inquieto. Um mergulho em suas paixões e seus amores.

Magro, 17 anos, não muito alto e com a barba por fazer. Um     adolescente que deixou a casa dos pais em São Paulo, para viver sozinho no Paraná. Na época era tão inseguro que chegava a ser ingênuo, acreditava na amizade de qualquer pessoa que se aproximasse com simpatia. Muitas vezes se deixava levar pela impulsividade, característica que se torna evidente após uma conversa: movimentos inquietos, fala rápida, o olhar para todos os lados e atitudes inesperadas. Por isso, em algumas ocasiões, acabou por exagerar na dose, como aconteceu quando terminou a noite em um princípio de overdose e foi levado às pressas ao hospital. Os médicos deixaram-no de lado e demoraram a atender. Seu amigo – que lhe acompanhava na boate mais frequentada da cidade de Ponta Grossa (PR), a Big Nigth, mesmo alterado por ter bebido a noite toda, ia insistir na recepção.

– O cara está passando mal.

– O que ele tem?

– Ele usou um barato… e ficou mal.

– Barato? Ele usou algum tipo de droga?

– Isso, isso.

– É só aguardar.

– Jovem bêbado e drogado, eles fazem pouco caso mesmo – resmungou a atendente.

– Tem que atender mesmo assim, são pagos para isso – reclamou o amigo.

O garoto, quase se recuperando ouviu toda a confusão.

– Tá certo, eu que fui besta, me ofereceram e eu falei “quero”, pode deixar eu morrer aqui mesmo, só arruma um colchãozinho, que esse banco esta deixando minha bunda quadrada.

Nessa noite Fernando tinha usado pela primeira e única vez a heroína – uma droga injetável. Ele descreve a sensação que teve como ótima: leve e que o fez se sentir capaz de tudo – foi uma fuga de todas as coisas que lhe incomodavam. “O foda era que o cara tava bêbado e aplicou errado, por isso que tenho esta marca na pele até hoje”, reclama Fernando, esticando o braço esquerdo, e apontando para um hematoma redondo e roxo, que tem até hoje, após seis anos do acontecido.

Na mesma madrugada, Ricardo estava pronto para viajar a trabalho para São Paulo, na época, também morava no sul do país. As malas e as passagens estavam em ordem. A sua mulher e os seus dois filhos já estavam acostumados a ficarem sozinhos. Tudo ocorria como de costume, até que a casa recebeu a notícia de que Fernando estava no hospital. Ricardo não quis saber de mais nada, largou tudo para trás: as malas, a viagem, o risco de perder o emprego e foi correndo até o hospital. Sua mulher ficou sem entender a sua atitude. Afinal, aquele garoto não era nada da família, nem parente e nem tão amigo ao ponto do desespero em que ficou Ricardo.  

Posso fazer uma coisa?

Fazia pouco tempo que Fernando tinha saído de uma clínica de reabilitação, internado por usar constantemente cocaína e maconha. Conheceu muita gente por lá – não era só uma clínica para usuários de drogas, tinha todo o tipo de gente. Ele se aproximou mais de uma menina, a Tamires, ela tinha perdido os pais muito cedo e estava em tratamento. Eles conversavam muito, mas Fernando mais a escutava do que falava de si. O local era lindo, haviam frequentes reuniões com a psicóloga, que sempre queria que cada paciente fosse a frente de todos para dizer o que estava sentindo “se a pessoa fosse lá e dissesse ‘ovo’, estava bom, todos batiam palmas e ficavam bem, até que era divertido tudo aquilo”, lembra Fernando.

Hoje, aos 23 anos, se sente livre de todas aquelas drogas e noitadas. “Desse mal não sofro mais”, afirma. Ele só não consegue largar os cigarros, que parecem uma extensão de seus dedos. E das bebidas, que na maioria das vezes são consumidas na companhia de seus amigos e, claro, de alguns maços.

Fernando ficou no Paraná dos 17 aos 22 anos, na adolescência decidiu que queria sair de casa e saiu, apenas tinha passado férias na casa de parentes no sul do país. No início desse período longe de São Paulo, após algum tempo na casa de sua tia, ele começou a ver que não era a mesma coisa que morar com os pais.

Sentia-se mal por ser cobrado por sua estadia e percebeu que estava vivendo de favor, mas correu atrás de um trabalho e teve sorte, achou um emprego com um bom salário, ficou ainda por três meses na casa de sua tia, com a sua grana começou a cursar faculdade de direito e foi morar em uma república.

Passou a dividir suas intimidades e a falta de privacidade com mais seis rapazes. A insegurança sempre o atrapalhava ao ponto de se sentir sozinho e sem amigos, foi quando Fernando começou a usar a maconha – seus companheiros de quarto já fumavam e ele não viu mal nenhum em experimentar.

Pela boa condição financeira que estava aos 17 anos, várias pessoas se aproximaram por interesse, ele não reclamava de emprestar ou pagar algo para seus amigos. Não tinha muitos limites, só pensava em agradá-los e tinha certeza que todos o consideravam da mesma forma, até que percebeu o oportunismo da maioria.

Quando se percebeu longe de casa e sem alguém em quem pudesse confiar pensou em voltar para casa de seus pais, mas não o fez, porém entrou em uma depressão destrutiva.

A sua mãe preocupada ligava para Ricardo e pedia para ele ir até a república ver como estavam as coisas. Fernando não tinha cortado totalmente as relações com a família, mas não se preocupava em manter a mãe a par de tudo que acontecia.

Ricardo começou a se aproximar – eles não se conheciam bem, de início, Fernando não queria ser ajudado em nada, mas com o tempo foi se sentindo seguro. Esse novo amigo fazia questão de ser o mais prestativo possível, mesmo quando uma vez o encontrou bêbado.

– Fernando, você é um cara tão inteligente, por que fica usando essas coisas?

– Não sei.

– Você precisa de alguém ao seu lado.

– Também acho.

– E por que não tem?

– Não sei, talvez não mereça ninguém.

– Posso fazer uma coisa?

Sem nenhuma resposta ele fez o que queria, Fernando não esperava aquele gesto, até queria que aquilo acontecesse, mas nunca achou que fosse virar realidade – Ricardo lhe abraçou carinhosamente e lhe deu um beijo na boca. 

 Com a morte, se aproximou

Aos 15 anos, Fernando perdeu Lito, o seu primo. O rapaz era envolvido com o tráfico de drogas na Zona Leste de São Paulo e ao participar de uma troca de tiros com a polícia foi atingido por duas balas, uma atingiu o coração e a outra a cabeça, sobreviveu por algumas horas e faleceu a caminho do hospital. “Era domingo de páscoa, estava assistindo TV com toda a família, e uma pessoa veio até o portão de casa chamar por alguém, a minha mãe saiu e teve a notícia que um homem havia sido baleado e se parecia muito com o Lito”, recorda Fernando. Os primos que tinham quase a mesma idade se viram pela última vez na segunda-feira antes da tragédia, Fernando estava quieto em seu quarto, Lito havia entrado em sua casa para tomar café e foi puxar conversa.

– E aí Nando tudo bem?

– Sim, tudo. E com você?

– Pra mim ta embasado.

– Por quê?

– Muita treta, muita treta.

E voltou para a cozinha.

Os dois escondiam de todos a relação amorosa que mantinham, grande parte da família frequentava a igreja evangélica, o medo da reação de todos era enorme. Mas os dois encaravam a situação com naturalidade, Fernando não se preocupava em se definir sexualmente e nem “publicar em um jornal” que estava com seu primo. “Fiquei triste e sentido com a morte dele, ao mesmo tempo senti um alívio, porque às vezes a nossa família acabava envolvida em suas confusões”, conta Fernando.

Foi no enterro de Lito que Ricardo apareceu, ele frequentava a mesma igreja que a família de Nando, e a partir deste dia se aproximou deles, conquistou a confiança da mãe, mas Fernando nem reparou a sua presença, porém o iria reencontrar algum tempo depois, quando ambos morassem no Paraná.

Ao voltar à São Paulo, teve que largar toda a estabilidade que construiu no sul: o trabalho, a moto e a faculdade de direito, mas trouxe a relação com o Ricardo, ficaram juntos por mais um ano, ao todo foram três anos de envolvimento intenso e clandestino. Um dos problemas que causou a separação do casal foi a constante insistência por parte de Ricardo para que Fernando construísse sua própria família, ele pensava que seria mais fácil esconder a relação se ambos tivessem uma família para manter às aparências. “Ele queria que a minha esposa fosse amiga da esposa dele e que meus filhos brincassem com os filhos dele, para que todos pensassem que mantínhamos uma amizade ingênua”, reclama Fernando.

Nando aceitou por um tempo essa ideia e chegou a ficar noivo da filha do pastor de sua igreja, a Regina, mas curiosamente durante os sete meses em que esteve com ela, não quis ficar com mais ninguém.

Sua menina

O noivado estava bom, Fernando gostava da menina, mas sabia que não iria conseguir viver sem a trair em algum momento.

Durante a relação com Regina, se apaixonou por outra garota, que conheceu em um bar e ficou por horas conversando, seu nome era Lívia e por ela Nando terminou o noivado e até pensou em morar junto com ela.

Lívia correspondeu à paixão repentina e começaram a namorar. Às vezes, ainda encontrava Ricardo, mas não sentia a mesma coisa por ele.

E, aos poucos, também não sentia a mesma coisa por ela, a nova paixão durou quatro meses, o suficiente para deixá-lo diante de uma gravidez inesperada.

– O que você vai fazer agora? Indaga sua mãe. Pois agora você nunca mais vai estar sozinho e essa criança vai depender de você para sempre.

Fernando ficou em silêncio, não imaginava que aquilo um dia iria acontecer, ficou confuso.

Só acreditou que seria pai diante de sua filha, quando entrou na sala da casa de sua tia e viu no colo de sua mãe aquele bebezinho, vestido com um macacão rosa, com ursinhos bordado no pulso e botões brancos no formato de flor – tudo começou a clarear.

– Que linda, é minha filha!

– É sim, tome, cuidado para não derrubar.

– Pode deixar.

– Viu o rostinho dela? Se prepare, essa menina ainda vai lhe dar muito trabalho…

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