nota Km 77 – gritos e acordes de fúria

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Setembro de 79, na estação São Bento.

— Acabaram de me tirar da banda.

— Eu vi, colocaram o Clemente…

Começaram a tocar violão, cada um com o seu instrumento.

— Sempre quis montar uma banda, mas não queria montar de punk. Eu sou baixista, mas queria tocar guitarra, sempre quis tocar uma Giannini preta e branca.

— Eu tenho uma Giannini preta e branca. Eu toco guitarra, mas eu queria mesmo era tocar um baixo Giannini preto e branco.

— Porra! Mas eu tenho um baixo Giannini preto e branco.

Essa foi a sintonia entre Redson e Hélinho. “Ali decidimos montar uma banda”. Semanas depois, lendo o jornal, Redson achou o nome de sua banda na matéria: Porcos matam milhares de pessoas no sul do país – era a cólera que ameaçava as pessoas e os animais. “Como eu já participava de passeatas contra a Ditadura Militar, liguei o nome cólera a uma fúria impetuosa capaz de destruir os porcos sociais da ditadura. Isso já era uma postura punk, o nome era punk, mas era um punk mais ideológico e decifrado do que violento”.

Compartilhou essas idéias com Hélinho, mas discutiram, como sempre. “Ele achou uma merda o nome, queria colocar Alcatraz”.

— Pow, mas alcatraz é uma música do Nazareht – banda de rock escosesa — argumentou Redson.

— Ah! Mas também é uma prisão… — retrucou Hélinho.

Discutiram muito… Até concordarem. Algumas semanas depois, Hélinho chegou com a notícia de que tinham um show marcado para o dia 12 de dezembro em uma escola da zona norte de São Paulo. “Tínhamos oito músicas e não tínhamos baterista, mas tive a ideia de chamar o Pierre, o meu irmão que se interessava em tocar”.

Foram ensaiar em um galpão que os Punks da Carolina tocavam – gangue da zona norte da Capital, formada pelas bandas Condutores de Cadáveres, que Hélinho havia saído, e Restos de Nada.  Nesses ensaios o Cólera completou as dez músicas que iriam tocar no show. Era um pequeno festival punk com as bandas do bairro da Carolina.

“Fomos a segunda banda a tocar, porque as outras já tinham um público considerável. Entramos e tocamos nossas dez músicas sem parar, e a galera curtiu, todos pogando – dançando, gritando e dando murros, e ao final das músicas a gente agradeceu, mas pediram bis e foi intenso.”

— Mais um! Mais um! Mais um!

Então falei para o Hélinho tocar o baixo em mi, em um ritmo 4×4 e pedi o mesmo para o Pierre na bateria.

“E cantei uma frase minha que tinha na memória.”

“Uau! Desrratiar! Desinfetar! Ser banal, politicagem! Eles querem condicionar a sua vontade, não se deixe levar, não vá aceitar!”

“Além de inventar uns refrões na hora. A galera gritava junto, mais ou menos assim.”

OUh! Eh! OUH! EH! OUUUH!!!!

Foi ali que tudo começou a dar certo e o Redson começou a acreditar que aquela história de banda poderia virar. Desde que começou a querer montar uma banda, ele buscava a sonoridade perfeita, aquilo que teria prazer em tocar no palco. Ainda no fim do ano de 79, já com a banda Cólera, que o consagrou no gênero, não estava certo do caminho musical que iria seguir. “Não queria fazer punk por causa das tretas que vinham acontecendo entre os punks e os roqueiros, eu queria fazer rock, na verdade eu queria fazer country rock, as músicas que escrevia eram nesse estilo, por influencia daquele filme… Duelo de Banjos…”.

Este filme, de 1972, conta a história de quatro amigos, que decidem descer de canoa um rio das florestas do Estado americano da Geórgia, antes que toda a região se transforme em uma represa. Em determinado momento, um deles participa de um duelo de banjos com um menino mudo, é uma das cenas mais marcantes do filme.

***

No Brasil, desde 1976, apenas alguns roqueiros ‘mais sortudos’ tiveram acesso a discos de bandas como Ramones, Sex Pistols e The Clash, as músicas dessas bandas eram curtas e agressivas, usavam poucos acordes e, com isso, aboliram os intermináveis solos de guitarra do rock progressivo, no punk os solos eram breves e simples ou nem existiam. As letras eram rebeldes e sarcásticas, politizadas ou não, mas em muitos casos não deixava de expressar uma antipatia à cultura vigente. Como mostra o som tosco e irônico da banda AI-5, de 79, na música: “John Travolta”:

Eu não aguento mais ouvir falar em John Travolta nem Olivia Newton John/ Eu não suporto mais ouvir falar nem dos Bee Gees nem na roqueira Rita Lee”

Como a maioria dos discos eram importados e muito caros, era difícil conseguir material das bandas, a alternativa era a troca de materiais por meio de fitas caseiras. Esse acesso a música, a cultura e ideologia punk fez surgir as primeiras bandas e gangues do gênero no Brasil, em 1978.

O país estava em uma fase econômica difícil, com uma alta inflação e mais de um milhão de desempregados na cidade de São Paulo. Os jovens daquela época que perderam os seus empregos e tiveram que encarar essa realidade econômica se aproximaram do punk exatamente por sua característica contestadora e agressiva, eram garotos que buscavam informações e sentiam-se excluídos e marginalizados, mas viram na música um caminho alternativo, porém também vieram as gangues e a violência.

***

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Em março de 79, antes de formar o Cólera, Redson foi convidado por um amigo para tocar em uma banda de Pirituba, a Tropa Maldita. “Eles tinham um som bem punk, punk mesmo, e os caras eram muito chapados, mas aceitei a proposta e ensaiei com eles por três meses até o dia do show”.

O som foi marcado para rolar em junho daquele ano em um bar de Pirituba. O pico tinha dois ambientes, na frente era como um bar de esquina comum, mas atrás havia um salão de bilhar, onde o palco foi montado, um pouco mais alto do que o normal. “Era um sonho meu tocar com banda, em um palco e com público, até ali só tinha tocado em ensaios para alguns amigos”.

O público naquela época era basicamente composto de roqueiros, existiam poucos punks na cidade, a maioria das pessoas que estavam lá vestiam jaquetas e calças jeans, poucos usavam coturnos e calças pretas.

Entraram no palco às 21h30. O problema foi que o som durante o show estava horrível, porque os caras da banda estavam chapados e não conseguiam tocar direito, o baterista tinha fumado uma tora enorme de maconha, que deixou ele muito devagar e a velocidade das musicas caiu três vezes do normal, “imagina um rock tocado ‘morrendo’!?”, comenta. Redson até tentou segurar o show sozinho, tocando guitarra e cantando, porque o vocalista tinha faltado. “Enfim, foi caótico!”.

Outro problema era que naquela época as brigas em shows desse tipo eram frequentes, nesse dia, o roqueiro presenciou um pouco dessa violência. “Teve muita briga, um cara foi esfaqueado e houve até tiro, nunca gostei disso, no meio do show, parei na metade do repertório, disfarcei, enfiei minhas coisas numa sacola, peguei meu ampli numa mão, a guitarra na outra e fui embora”.

O clima de violência não fazia parte do que Redson planejava, ele não queria montar uma banda para brigar ou ser parte de alguma gangue. Desde quando começou a ter contato com roqueiros e punks queria misturar as duas vertentes. Foi o que ele fez em março de 1980, quando participou da organização de um evento em um lugar chamado Tarkus, em São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo, com bandas que tocavam a música Punk e outras apenas rock, rock pesado, mas não punk. “Era um risco, porque existia uma rivalidade forte entre esses dois grupos, mas eu achava que não havia lógica não misturar, ainda bem que não teve nenhuma briga, isso foi um ponto positivo”, exalta o roqueiro.

Redson se envolvia cada vez mais com o estilo, mas ele ainda tinha dúvidas em relação a sonoridade que deveria seguir. “Uma vez que passou essa fase do ganguismo, o punk mostrou ter uma força maior, a sua força cultural e política. Tínhamos a ideia de estarmos recriando uma nova sociedade, que além de ser contra a Ditadura Militar, tinha como valor maior ‘dividir’. O punk propunha essa nova postura, libertária e mais justa. A paixão pela sonoridade nos uniu e fez da gente uma comunidade”, explica Redson, empolgado.

São capazes de enxergar /através da sua face /são possuidores da fome/e da vontade de comer. / Eles são os anjos, anjos, anjos / Do beco! / Podem ter a violência como a melhor resposta / jogando com qualquer cabeça / deixando a reta torta.

(Trecho da Música da banda Cólera do álbum “Primeiros Sintomas”)

***

A partir do início dos anos 80, as gangues de São Paulo começaram a se unir e as brigas diminuíram, mas ainda existia uma grande treta com os punks do ABC. Em 1982, Redson participou da organização de mais um show, que convidou os punks do ABC a virem à São Paulo. Este evento foi o Começo do fim do mundo, realizado em dois dias, ficou marcado como o primeiro festival do gênero, feito no Sesc Pompéia, contou com 10 bandas da capital e 10 do ABC.

O festival colocou os punks na mídia do Brasil e da gringa. Além da música, ocorreram exposições fotográficas, mostra de fanzines – publicações alternativas e independentes feitas pelos próprios punks, exibição de documentários e até o lançamento de um livro da coleção Primeiros Passos, da Editora Brasiliense, intitulado O que é Punk?, escrito pelo teatrólogo Antônio Bivar, que se aproximou dos punks da época para saber do que se tratava aquele esboço de movimento cultural e musical. Foi nesta época, o início da construção da identidade punk, que deixou de ser apolítico e niilista para assumir feições de um movimento de esquerda, este discurso era popularizado através das músicas e dos fanzines.

O evento era gratuito, o Sesc financiou o equipamento de som e a gravação dos shows em fita cassete, para que mais tarde fosse lançado um LP com o mesmo nome do festival, com as músicas das  principais bandas que tocaram: Cólera, Inocentes, Psykóze, Lixomania, Olho Seco, Hino Mortal, Ulster e M19.

Mais de três mil pessoas foram aos shows, com suas jaquetas de couro fajuto, coturnos e cabelos espetados com sabão. Punks de toda a grande São Paulo e interior. O festival também serviu para apaziguar as rivalidades territoriais do movimento.

No primeiro dia, tudo ocorreu sem problemas. Mas, no domingo, vieram duas gangues super-rivais, a Carecas do Subúrbio e a Punk da Morte, que deixou o clima relativamente tenso. Esboçaram uma briga, mas logo foi apartada.

Um carro da TV Globo tentou entrar com equipamento para noticiar o festival e quase foi tombado. A multidão de visual ameaçador assustou a vizinhança e duas viaturas da polícia foram averiguar o evento, mas os punks entraram no Sesc e fecharam os portões e de dentro do local provocaram os policiais, até que no meio do show do Ratos de Porão a tropa de choque da Polícia Militar invadiu com seus cassetetes e escudos e o caos se instalou. 25 jovens foram presos e a festa acabou na mesma hora, mas ficou marcada como um dos maiores festivais de punks do Brasil.

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A aproximação do rock 

Quando apenas era chamado de Caquinho pela família, abreviatura do apelido Macaquinho, dado pela energia de moleque hiperativo que era, Redson tinha ao seu redor um ambiente musical bem diferente dos shows de punk rock. “Se seguisse a influencia do que ouvia e de como eram as pessoas da minha família e do bairro onde morava, iria para o lado do samba ou do pop americano, que era o que tocava muito nas rádios”. Ele morava no bairro do Capão Redondo, zona sul de São Paulo, periferia da cidade.

Seus pais tinham discos dos anos 60 e 70 da Jovem Guarda, onde o músico descobriu a guitarra elétrica e o rock pop que faziam naquela época no Brasil. Em um sábado à tarde de 1974, enquanto assistia na TV ao programa Sábado Som, veiculado todo o sábado às 16 horas com a apresentação de Nelson Motta, viu aparecer na telinha algo que iria ser o impulso que faltava para que ele percebesse toda a sua capacidade musical.

A banda Kiss surgiu em sua frente e berrou repetidamente o refrão da música Rock And Roll All Night”, para o encanto do menino de 11 anos, que assistia fascinado toda aquela agressividade visual e sonora até então nunca vista em sua vida. Foi nesse momento, que teve a sensação clara de que queria fazer rock. “Era muito clara essa sensação, acho que foi o primeiro insight que tive na minha vida como autodidata, por sentir que eu poderia fazer aquilo sem mesmo ter que estudar em uma escola”.

You show us everything you’ve got
You keep on dancin’ and the room gets hot
You drive us wild, we’ll drive you crazy

You say you wanna go for a spin
The party’s just begun, we’ll let you in
You drive us wild, we’ll drive you crazy
You keep on shoutin’, you keep on shoutin’

I wanna rock and roll all night and party everyday

Era o primeiro contato dele com um rock mais pesado e com uma banda tão diferente, com seus rostos pintados, de forma agressiva e teatral no palco, a festa de Rock And Roll All Night” foi o estopim, mas Redson foi além da diversão com coisas como:

Tratores derrubando a Amazônia
Camada de Ozônio, ferida sangrando
Matança, egoísmo em massa
É uma emergência!!!
É uma emergência!!!
A Terra, um lugar pra morar
Tem muita mata, muita chuva e tem ar
Espera só pra ver os leões,
As aves, os peixes e os imensos vulcões

Bicho gente está doente
Mata o mundo, mata gente
Parem as guerras
Deixe a Terra em paz!
Deixe a Terra em paz!
Deixe a Terra em paz!
(Trecho da música Deixem a terra em Paz)

A partir do impacto da banda americana, a criação dos seus próprios instrumentos foi o próximo passo para o menino hiperativo do Capão Redondo continuar em sua aventura musical.

Aos 12 anos, conseguiu concretizar algo parecido com uma guitarra. Às referências do instrumento eram somente as capas dos discos de seus pais, que ele olhava fascinado. “O meu pai tinha uma imobiliária e foi ali que consegui parte do material para fazer a minha guitarra”. Ele pegou várias placas de ‘aluga-se’, cortou todas no formato de uma guitarra, e usou um pedaço de madeira para ser o braço do instrumento. “Foi a parte que deu mais trabalho, pois tive que lapidar para deixar a parte de trás redondinha e coloquei palitos de dentes para serem usados como trastes – os pontos em que o músico aperta a corda para conseguir a nota desejada”.

Para manter as quatro cordas de pesca de seu pai esticadas no novo brinquedo usou pregos, que eram desprendidos e esticados constantemente, para tentar afinar e chegar à alguma nota. Para experimentar a distorção, ele pegava um papelão e colocava no vão entre as cordas e o braço. “Isso rachava o som e eu conseguia a minha distorção, eram os recursos que eu tinha na época. Fui brincando e gostei da ideia de tocar”.

O seu entendimento em relação a música se expandiu a partir de duas rádios, a Difusora AM e a Excelsior AM, que eram as únicas com programação musical. Lá tocavam bandas como Led Zeppelin, Deep Purple e Pink Floyd, todas estrangeiras, por esse motivo, começou a perceber que se não aprendesse inglês nunca iria compreender por inteiro o rock’ n ’roll. Com seus 13 anos, depois da alquimia com os instrumentos, começou a estudar sozinho a língua inglesa.

Passados um ano e meio, entendia o suficiente o que as bandas cantavam. “Isso fez surgir em mim a cultura do rock, como ele se expressava e a sua rebeldia. Compreender as letras fez com que me identificasse ainda mais e me conscientizasse em relação aos assuntos abordados pelas bandas”.

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