Onde mora o preconceito?

A sociedade cultiva a discriminação contra os homossexuais com leis e princípios compartilhados pela família

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Homofobia mata. Este foi o tema principal da XII Parada do Orgulho GLBT (Gays Lésbicas Bissexuais e Transexuais) de São Paulo, que ocorreu no último dia 25. O tema escolhido vem de encontro com os debates e movimentos políticos pela aprovação do Projeto de Lei 122/06 no Senado, que criminaliza as ações por preconceito homofóbico em território nacional.

Segundo a diretora de pesquisas Elga Lopes, o serviço de 0800 sobre o projeto de lei tem manifestado um maior índice de opiniões contra a sua aprovação, das 36 mil ligações feitas ao Senado 80% são contrarias a lei.

A homofobia não é uma simples agressão à sexualidade de uma pessoa, ela guarda questões psíquicas muito fortes, a psicóloga Zilda Santana, esclarece em entrevista e da a dimensão do que na realidade é a homofobia.

Formada desde 83, pela universidade Mogi das Cruzes, Zilda direcionou a sua carreia para a área clínica. Em 91, participou de um plano de ação dentro da rede de atenção à saúde mental em São Paulo.

Ela também fez parte da equipe do centro de DST AIDS da capital, na rede pública, lá ela pôde ter contato direto com pessoas que buscavam o exame ou tinham alguma dúvida sobre a doença. Em várias situações ela que acabou por dar a notícia do resultado positivo do exame para o paciente.

Hoje, Zilda coordena o CECCO (Centro de Convivência e Cooperativa), que trabalha com diversos grupos por meio de oficinas, com o objetivo de ajudar as pessoas em suas relações pessoais.

ImageMaty Qual a raiz do   pensamento de relacionar o sexo diretamente com os homossexuais, tendo como consequência subestimar as suas capacidades e competências diante da família, trabalho e sociedade?

Zilda Santana – Na antiguidade não existia essa diferenciação, as pessoas viviam sua sexualidade de forma livre. Com a aproximação e chegada da idade média, um cunho religioso se fez presente e determinante para a formação de uma sociedade, trouxe a ideia do controle, inclusive o controle sexual. Para algumas coisas essa ideia foi interessante, já para outras foi uma ruína. Na idade média, a igreja católica teve seu maior poder, mas não só observa-se isso na igreja católica, cada religião tem seus critérios de controle sobre a comunidade.

MatyQuais são os pensamentos mais cultivados, no censo comum da sociedade, que podem estimular o pensamento homofobico?

ZS – Às vezes podemos ver mães e pais dizendo: – não quero meu filho, ou filha andando com aquela pessoa. Este é um dos medos gerado pela ignorância em relação a sexualidade e a homossexualidade. O estereotipo do homem feminino e da mulher masculina fazem com que o gay esteja em exposição, mas isso não acontece apenas referente a homossexualidade, pois estar em evidencia provoca constrangimento por parte de alguns e acolhimento por parte de outros. Uma situação estereotipada gera determinados sentimentos e comportamentos diversos em um grupo observador. Por tanto, gays de caráter mais afeminados vão chamar mais a atenção, isso faz com que as pessoas deixem de ver o interno para focar na imagem, no estereotipo, quando na realidade essa visão é totalmente secundária.

MatyA discriminação institucional contra os homossexuais: como a proibição da possibilidade do serviço militar e leis como há em muitos estados americanos que tornam as atividades sexuais entre dois homens ilegais, ajudam no desenvolvimento da homofobia?

ZS – Nos EUA existe uma autonomia dos estados, têm estados que podem proibir, aqui não é assim, é uma lei única. Por outro lado, em nosso país existe um projeto de lei contra a homofobia em tramite desde 2001, que ainda esta para ser prorrogado, com isso vemos o descaso com que esse assunto é tratado. A lei coloca que deve haver respeito, vai pelo viés da criminalização, considerando crime qualquer tipo de agressão e ofensa aos homossexuais, com pena de um ano. Se a gente tem o racismo e qualquer outra discriminação como crime, a homofobia também deve ser considerada como tal. Enquanto você ainda tem um país que precisa formar leis para garantir os direitos de uma determinada comunidade, mostra que a coisa tem que ser feita na “marra” para acontecer, se não a tendência é só piorar.

Maty – Quais os conceitos do que é chamado Heterossexismo ?

ZS – O heterossexismo vem nomear um comportamento que já existe na sociedade. É interessante que a palavra hétero é onde cabe a diferença, vem da palavra grega heteros, que significa ‘diferente’, e Homo, por sua vez, tem origem no sentido de ‘igual’. Na sociedade não tem muito sentido o que significa cada uma dessas palavras, o hétero tem um valor, uma concepção de que a diferença cabe, mas dentro daquilo que a sociedade prega, a nossa prega o heterossexismo, ou seja, de que apenas o heterossexualismo é o certo e o normal.  

MatyA homofobia é um problema psíquico ou comportamental?

ZS – Acredito que se misturam, grande parte das questões são sociais, com influências do ambiente em seu funcionamento e concepção de valores que formam o sujeito. A questão da educação em relação à formação familiar traz um peso a mais na visão do indivíduo em todos os aspectos, inclusive sobre a discriminação, o comportamento homofobico tem em sua estrutura características maiores de preconceito. A questão psicológica é observada quando a pessoa passa a acreditar que se ela conviver com homossexuais poderá ser contaminada por aquele comportamento, indivíduos permeados por esse tipo de pensamento, têm um problema de ordem psíquica. Não se pode pensar que é uma coisa só, mas ainda acredito que a sociedade é a maior responsável, com uma formação baseada em conceito e princípios conservadores.

Maty Segundo Freud, todas as pessoas começam por se bissexuais no início da infância e que reprimem a sua atração pelas pessoas do mesmo sexo enquanto crescem. Um de seus seguidores, Sandor Frenczi, diz que a hostilidade de homens contra homossexuais é uma defesa, uma reação contra a sua atração semelhante pelo mesmo sexo, o que pensa a respeito?

ZS – Esse é um conceito da psicanálise, dita por Freud, até hoje estudada e não rebatida, o que essa ideia coloca é que a sexualidade configura por volta dos três e cinco anos de idade, isso faz pensar justamente que uma criança nessa idade não tem capacidade de escolher o que ela quer, então ela vai pela via do amor e da aceitação, ser ter como responsabilizá-la. Podemos ver a homossexualidade com normalidade, fazendo parte do ser humano ou desconsiderarmos Freud e jogar a sua teoria fora. Falasse em opção sexual, a pessoa não optou, esse termo não está adequado, a psicanálise diz que isso é formado em um período muito remoto da vida, ainda no final da primeira infância.

MatyMuitos homossexuais passam por uma fase de aceitação e dúvidas sobre a sua sexualidade, muitas vezes têm medo e relutam contra essa condição, pode-se caracterizar essa passagem como homofobica?

ZS – Sim. Essa fase pode gerar confusão, apatia e às vezes até certa agressividade e isolamento. Nela, o jovem esta vivenciando uma descoberta sobre si mesmo. Normalmente ocorre na adolescência, exatamente quando a pessoa toma contato com a sexualidade e com seus desejos, é evidente que a pessoa irá constatar que suas vontades não são as mesmas que a sociedade prega como o correto, mas não necessariamente todos vivem esses conflitos internos, em algumas situações o conflito externo com a nossa sociedade é mais desgastante. A descoberta exige um enfrentamento de vários conceitos, em uma das fases de maior dificuldade para o jovem, a adolescência. Nesse caso, a homofobia pode ser um mecanismo de defesa involuntário e inconsciente.

Maty – Qual seria a melhor forma de combate à homofobia?

ZS – A essência desse combate é a educação, porque se você tem uma boa formação no núcleo familiar, na escola e na comunidade, ela pode servir como facilitadora para várias questões que você não entenda ou que não fazem parte de seu convívio.

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