Da morte à vida de quem chorou

“Democracia sem liberdade, democracia com um salário de fome e miséria, democracia com o filho do operário sem ter direito a estudar… Isso não pode, não tem como.” Foi o que disse em 02/1981, Elizabeth Teixeira, a viúva do líder da liga camponesa no sertão da Paraíba, João Pedro Teixeira, assassinado a mando de latifundiários de Pernambuco em 1962, ao final do documentário “Cabra marcado para morrer”, do diretor Eduardo Coutinho.

A viúva desabafa ao diretor, registrada com a câmera quase escondida pelo vão entre um carro e Coutinho. A cena expõe a sua revolta com tudo aquilo que sofreu e com o momento político da época de uma forma forte e sincera, como se estivesse pronta para passar por tudo aquilo que aqueles últimos 17 anos de fuga e clandestinidade trouxeram.

Além de retratar um momento histórico de uma forma emocional, com a visão de pessoas que sofreram com a perseguição e a violência da ditadura militar, Coutinho nos mostra como conseguiu realizar o filme, a sua intenção, as interrupções, as negociações com alguns entrevistados e a sua própria participação naquele registro.

As realidades mostradas se cruzam e se tornam íntimas, o cinema fez parte de um momento da vida daquelas pessoas e a partir dessa relação a vida de cada um foi desmembrada por meio de entrevistas com aqueles que participaram das filmagens antes que o golpe militar de 64 as interrompessem.

Na década de 80, o diretor retoma o filme e vai buscar todos aqueles que fizeram parte da tentativa de contar o enredo da morte de João Pedro Teixeira em 1964. O retrato desse sertão nordestino político é explorado galgado na essência do que essas pessoas viveram e no próprio filme, pois Coutinho vira um dos personagens principais ao lado de Elizabeth e Pedro Teixeira.

A arte influencia a realidade e cria relações íntimas com o que é contado, o filme age diretamente no passado, presente e futuro dos personagens. Como na vida de Elizabeth, que participou das primeiras filmagens como atriz interpretando o seu próprio papel e viveu na clandestinidade como Marta, até Coutinho reencontrá-la e devolver a sua identidade e a possibilidade de procurar os seus filhos, que na fuga ficaram espalhados pelas casas de parentes.

Image

Anúncios

Comente aqui

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s